A Bipolaridade de Santos Dumont

Alberto Santos Dumont foi o brasileiro de maior projeção em sua época. Este inventor era rico e um gênio, foi notícia em todo mundo no início do século que passou, por conta de seu 14 Bis e, depois, com o Demoiselle. Em cinqüenta anos, teve cerca de uma dezena de biografias. Até hoje, entretanto, pouco se sabe sobre as razões que realmente o levaram a cometer suicídio em seus 59 anos, no banheiro de um hotel no litoral paulista.

A versão mais aceita é que o motivo do suicídio foi a angústia de ver o uso militar do avião, entretanto esta versão não resiste a uma análise crítica. Santos Dumont sofria de uma doença emocional mal conhecida pela medicina da época e, portanto, sem nenhum registro confiável de suas causas. Alguns biógrafos do brasileiro não concordam completamente sobre o diagnóstico.

Existem os que dizem tratar-se de neurastenia, outros de esclerose múltipla ou e então de depressão profunda. Seis médicos da Academia Nacional de Medicina, da Federação Brasileira de Psicanálise e da Associação Brasileira de Psiquiatria tiveram acesso a vários documentos relacionados a doença de Santos Dumont. São recibos de farmácia, comprovantes de consulta médica, cartas suas e de seus amigos. A quantidade de informações resgatadas destes documentos joga uma nova luz sobre o assunto. Para os especialistas, o que levou o inventor ao suicídio foi o transtorno bipolar, hoje diagnosticável (inclusive com exame de sangue) e tratável com medicamentos.

Documentos

Os documentos demonstram sua longa luta para manter-se lúcido. Uma batalha que acabou perdendo. Entre 1910 e 1932, ele internou-se em clínicas de repouso na Europa, procurou os melhores psiquiatras do Brasil, tomou calmantes, apelou para massagens terapêuticas e inclusível banhos medicinais. “Ele tinha uma personalidade dupla. Alternava momentos de depressão com outros de euforia, o que caracteriza o transtorno bipolar”, diz o psiquiatra José Candido Bastos, membro da Federação Brasileira de Psicanálise. Seu quadro de depressão foi repetidamente descrito nas biografias. Mas os momentos de mania não. Os documentos, que estão no acervo da Aeronáutica, ajudam a entender o quebra-cabeça. “Podemos excluir doenças neurológicas como a esclerose múltipla. O diagnóstico atual seria transtorno bipolar do humor”, concorda o psiquiatra Miguel Chalub, da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Os especialistas consultados basearam em três pontos sua avaliação: a documentação médica disponível, o histórico de comportamento e as cartas e de Santos Dumont. Em 1910, após um acidente aéreo, ele deixou a aviação por conselho médico. Tinha somente 37 anos. Passou a ter crises de depressão de tempos em tempos até 1925, quando internou-se na Suíça na clínica de repouso Valmont,. Dois anos após, na clínica, já tinha uma aparência envelhecida. Não queria ir embora, contrariando os conselhos médicos. Porém tinha picos de euforia. Em um desses momentos, tentou voar pela janela com um par de asas rústico preso às costas. Uma enfermeira o impediu. Não foi a única vez em que a mania/hiponamia foi canalizada para invenções pouco funcionais. Em 1928, Santos Dumont criou o Conversor Marciano, um tipo de hélice colocada nas costas de esquiadores que em tese deveria ajudá-los a subir montanhas com menor esforço.

Suicídio

Naquele ano, outra tragédia o abalaria. Um grupo de amigos decidiu saudá-lo com um sobrevôo do navio que o trazia da Europa. O avião caiu e todos morreram. A partir deste ponto, se agravaram as crises. Sua correspondência demonstra uma profunda depressão. Em 1931, escreveu: “É a primeira carta que escrevo depois de ficar dois meses de cama. Talvez amanhã vista roupa e botinas”. Nos recibos de farmácia datados daquele ano, existem medicamentos à base de brometo, um calmante universalmente prescrito. Ele tentou o suicídio três vezes. A primeira na Clínica de Saúde Préville, onde ficou internado na França. A segunda, a bordo de um navio. Na ocasião, escreveu o bilhete: “Hoje de manhã eu quis me suicidar e foi Jorge que me salvou. Se numa próxima vez isso acontecer, a culpa é toda minha”. Dias depois, quando o navio atracou, seu quadro emocional já era o contrário. Os jornalistas foram encontrá-lo falante, andando de um lado para o outro e exibindo sua nova invenção, um estranho aparelho de voar individual.

Santos Dumont foi um inventor prodígio e viveu momentos de glória depois de voar pela primeira vez, em Paris, em 1906, com um aparelho “mais pesado do que o ar”, justamente quando a cidade vivia os ares triunfais da plenitude do engenho humano por ter sediado a Feira Mundial na virada do século. A personalidade excêntrica do inventor brasileiro era vista como resultado de sua genialidade. Poucos associaram sua emoção oscilante a uma doença. Mesmo se houvesse a chance de um diagnóstico certo, seriam nulas as alternativas de cura. O inventor agarrou-se a todas, mas sua fortuna não impediu o avanço da doença. No Brasil, ele tratou-se com Juliano Moreira, um dos maiores nomes da psiquiatria brasileira.

Também foi atrás do psiquiatra Henrique Roxo, muito requisitado por suas receitas baseadas em plantas medicinais. Nada disso funcionou. “Ele buscou tratamento em diversas ocasiões, o que não é comum em pessoas depressivas, que tendem a justificar os sintomas como produto de causas externas”, diz Henrique Lins de Barros, um dos seus principais biógrafos,.
A vida de Santos Dumont foi sempre marcada por eventos traumáticos. A mãe, Francisca, se matou em 1902, quando ele estava no auge da carreira. Nos anos 20, enquanto sua fama de pioneiro ainda estava intacta, sua habilidade como criador de aviões mais modernos se espalhavam rapidamente. Os aviões fabricados em série, usadas comercial e militarmente, pouco se pareciam com o 14 Bis e com outros veículos voadores projetados por Santos Dumont.

Ele continuou tentando se superar. Em vão. A doença, junto com essas frustrações, se mostrava fatal. A tese simplista do suicídio pela angústia de ver os aviões usados na guerra reforçaram o mito do herói. Mas atrapalhou a pesquisa sobre a história verdadeira do grande brasileiro.