A teoria das promessas quebradas

 A distância que separa os conhecimentos produzidos por milhares de pesquisas científicas e o imaginário social sobre o suicídio é muito grande. O imaginário está repleto de mitos, de crenças falsas. Começo com dois: 1) os países escandinavos são os campeões mundiais do suicídio e 2) os suicídios são mais comuns nos meses de inverno.

São países da ex-União Soviética os que apresentam as mais altas taxas de suicídio: a Lituânia, seguida da Rússia, da Bielorússia, do Cazaquistão, da Eslovênia, da Hungria, da Estônia, da Ucrânia, da Letônia, aparecendo o Japão em décimo. Se o leitor participava dos erros, ele estava em companhia de gente importante. O presidente Eisenhower, homem de poucas luzes, chegou a atribuir o alto número de suicídios na Suécia ao socialismo. Não fez o dever de casa.

Nos fim e início dos anos, levanta-se a questão dos efeitos dos feriados sobre a taxa de suicídios. Bozsonyi, Veres e Zonda analisaram 140 mil suicídios na Hungria entre 1970 e 2002. Concluíram que, ao redor do Natal e da Páscoa, os suicídios declinam, mas apenas entre os homens; no primeiro dia do ano, ao contrário, há um aumento substancial nos dois gêneros e em outros feriados húngaros não há alterações. Há outros ritmos dos suicídios — aumentam às segundas-feiras e declinam durante os fins de semana — entre homens e mulheres. O inverno tem taxas baixas de suicídio, mas a primavera e o verão têm taxas altas. Os dados húngaros apoiam a hipótese de Howard Gabennesch, que propôs a teoria das promessas quebradas em 1988, em Social Forces, para explicar as variações sazonais. Desde então, muitas pesquisas, em diversos países, confirmaram o ritmo e a sazonalidade dos suicídios

Que leitura faço dessa teoria e como a suplemento? A primavera não é, apenas, a estação das flores e borboletas. É, também, a estação de muitas expectativas, de promessas de amor e companheirismo que não chegam a se concretizar. Elas podem resultar de percepções erradas, nas quais a esperança e o desejo alteram a realidade, criando e ouvindo promessas onde elas não existem. As relações interpessoais têm amplas áreas cinzas, com muito espaço para subjetivismo e interpretações falsas. Infelizmente, a generalidade da lei de Gerson aumentou o número de promessas por pessoas que não têm a intenção de cumpri-las.

As promessas também podem ser feitas pela própria pessoa, as resoluções de Ano Novo são um exemplo. A primavera é a estação das promessas que não se cumprem, das promessas quebradas. Pessoas muito deprimidas, com ideações suicidas, podem colocar todas as esperanças de felicidade em promessas de amor, de viagens, de carinho, de vida nova, de parar de beber, de jogar, de consumir drogas, até de fazer dieta e perder peso. Essas promessas, se não cumpridas, podem levar pessoas predispostas ao suicídio. Um profundo desânimo com a própria pessoa e sua capacidade de superar os obstáculos. Ironicamente, a maioria dos que buscam ajuda a encontram e vivem felizes. Às vezes, a solução está a um telefonema de distância.

o número de pessoas atingidas por promessas quebradas é muito maior do que o das que tentam o suicídio

Temos marcadores que se repetem: aniversários, Ano Novo, a primeira chuva, a primeira flor, a primavera. Até as segundas-feiras e o primeiro dia do mês. São oportunidades de recomeçar, de vida nova. A negação desses sonhos pode estimular o suicídio.

Porém, o número de pessoas atingidas por promessas quebradas é muito maior do que o das que tentam o suicídio. O que explica a diferença? O que separa as que tentam das que não tentam?
A resposta é: em boa parte, as doenças mentais. Lonnqvist e associados pesquisaram 1.397 suicídios ocorridos na Finlândia em 1987/88. Pelo menos um diagnóstico de doença mental foi encontrado em 93% dos casos: em vários havia comorbidade, mais de uma doença. As mais comuns foram as síndromes depressivas (66%) e a dependência/abuso de bebidas alcoólicas (43%). Essas vítimas não foram acompanhadas como deveriam: das que sofriam de depressão séria, apenas 3% tomavam drogas psicoterapêuticas e apenas 7% recebiam terapia semanal por um terapeuta adequado. Isso na Finlândia — imaginem no Brasil.

Nos Estados Unidos, as pessoas que sofrem de desordens mentais têm uma probabilidade entre 12 e 20 vezes maior de suicídio, dependendo da desordem. A bipolaridade e a depressão séria estão entre os mais altos fatores de risco e o alcoolismo também. Um, entre quatro suicidas, abusa ou é dependente do álcool, e nada menos de metade dos que se suicidam apresentam álcool no sangue, durante o exame toxicológico post-mortem.
A teoria das promessas quebradas contribui para entender as variações sazonais (estacionais) nas taxas de suicídio, algo diferente da explicação do suicídio que, para ser explicado, requer contribuição interdisciplinar. Religião, família, gênero, idade e, sobretudo, doenças, transtornos e desordens mentais são variáveis indispensáveis para a explicação e, eventualmente, para a prevenção.

Veículo: Correio Braziliense
Seção: Opinião
Data: 09/02/2007
Estado: DF

Gláucio Ary Dillon Soares
Sociólogo, pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)